NÓS NÃO FOMOS ELEITOS POR DEUS COM BASE EM NOSSOS PRÓPRIOS MÉRITOS
...Porque a verdade de Deus é tão clara neste campo que não poderá ser obscurecida; e tão certa e firme que não poderá ser abalada por nenhuma autoridade dos homens. Certamente o apóstolo Paulo, ao nos ensinar que “fomos eleitos em Cristo antes da criação do mundo” [Ef 1.4], elimina toda e qualquer consideração por nossa dignidade ou merecimento. É como se disse: visto que na semente universal de Adão, o Pai celestial não encontrou nada que fosse digno da sua eleição, dirigiu o olhar para o seu Cristo, a fim de eleger, como membros do seu corpo, aqueles que ele quis admitir à vida. Fique pois definido e estabelecido este argumento entre os crentes: que Deus nos adotou em Cristo para sermos seus herdeiros, porque em nós mesmos não tínhamos capacidade para alcançar tão excelente posição. Isso o apóstolo registra igualmente bem noutro lugar, quando exorta os colossenses a darem graças a Deus por havê-los feito idôneos para participarem da herança dos santos [Cl 1.12]. Se a eleição de Deus precede a esta graça pela qual ele nos torna idôneos para obtermos a glória da vida futura, que encontrará ele em nós que o mova a eleger-nos?
O que pretendo mostrar ficará ainda mais bem expresso por esta outra sentença: Deus nos escolheu, diz ele, “antes da fundação do mundo, para sermos santos e irrepreensíveis perante ele; e em amor nos predestinou para ele, para a adoção de filhos, por meios de Jesus Cristo, segundo o beneplácito de sua vontade” [Ef 1.4,5]. Paulo coloca o beneplácito de Deus em oposição a todos os méritos que se possa mencionar, porque, onde quer que reine o beneplácito de Deus, nenhuma obra entra em consideração. É certo que ele não trata disso nessa passagem, mas devemos entender essa comparação nos termos em que ele a explica noutro lugar, quando diz: Deus “nos salvou e nos chamou com santa vocação; não segundo as nossas obras, mas conforme a sua própria determinação e graça que nos foi dada em Cristo Jesus, antes dos tempos eternos” [2 Tm 1.9]. As palavras que na passagem de Efésios ele acrescenta (“para sermos santos e irrepreensíveis”) não nos livram totalmente de inquietação. Sim, pois, se dissermos que Deus nos escolhe porque previu que seríamos santos, estaremos invertendo a ordem seguida pelo apóstolo Paulo [...]
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Fonte: As Institutas da Religião Cristã, edição especial, ed. Cultura Cristã, Vol III.
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